5 de jan de 2012

Cedo


Era cedo e estava acordada. Com insônia, mas com vontade de dormir. Com olhos confusos e inchados por ter chorado. Ela era assim mesmo, de chorar. Tentar entender. Seria entender mesmo necessário? “Estamos todos mais sensíveis, por isso, que tal dar mais do que exigir receber?” Mas ela sabia que vinha oferecendo tudo que podia, tudo que tinha no seu estoque de coisas a serem oferecidas... ela passou os últimos meses oferecendo doses homeopáticas de sentimento e cuidado, de palavras doces e afeto. Compartilhava interesses, palavras, sorrisos, novidades, momentos. Ela é intensa e exagerada. Não tinha muitos limites para o que podia entregar. Podia escancarar tudo e dar de bandeja até os seus pensamentos de “dez reais”. Ela é assim. Ponto. Abriu o peito feito uma colcha de retalhos sobre a mesa, pronta pra que ele entrasse no seu mundo e fizesse parte de seus dias de sol.
Começou a pensar sobre ele... Pra isso precisou abrir os olhos, botar uma música blasé na vitrola e beber algo, naquela boca seca. Abriu a janela pra que o sol cegasse seus olhos borrados e fizesse reluzir a cafonisse daquela cara amassada de quem chegou de madrugada e chorou com a cara enfiada no travesseiro. (Não adiantou chorar).
Mas voltando aos pensamentos... iam e vinham... sempre com ele no foco... seu sorriso fácil e debochado, as suas costas que não achava em nenhum outro por aí.  Não era simples compreender ou tentar compreender o que ele podia dar, e o que simplesmente não estava ao seu alcance, ou o que simplesmente ele não queria dar a ela. Ele achava que tudo tinha que ser grande, que não se podia oferecer pequenas coisas como mãos dadas e beijinhos na ponta do nariz. Ele se recusava. Repetidas e repetidas vezes. E ele foi se tornando tão complexo, enigmático, confuso, ele foi ficando longe. Os dois foram ficando distantes um do outro...Ele sempre consegue empurrá-la pra longe.
Nessas horas ela queria acender um cigarro. Cigarros fazem companhia.
Ontem ele disse algo que magoou. Disse pra ferir. Pra tripudiar sobre tudo o que ela fazia até então, que era só gostar. Essas palavras passaram a noite toda ecoando, repetindo, ensurdecendo. Ela não conseguiu dormir. Era cedo e estava acordada. E ele não mais a machucaria assim. Por favor, Deus! Não mais!

Um comentário:

Allan Santana disse...

Dar demais é sempre um perigo. Desses perigos gostosos de sofrer, necessários para pessoas como eu, como você.