28 de out de 2009

Ligia

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, Ligia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
Ligia, Ligia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia

Tom Jobim


Interessante é parar pra pensar nas mentiras de amor que insistimos em dizer constantemente nos nosso joguinhos de sedução. Tudo porque os olhos alheios metem mais medo que um raio de sol.


Para ouvir: Tom!

20 de out de 2009

E que chatice que é estar em intermédios.
Nem uma coisa, nem outra.
Entre. Em progresso. Pra onde não se sabe.
Parece coisa alguma, mas sempre dá em algum lugar.
E no meio de tudo isso não há borboletas no estômago, nem objeto de desejo, nem sonho pra começar o dia, nem papos estranhos e lúdicos quando não se tem o que fazer ou quando não se quer fazer o que se tem...
Não há saudade ou joguinhos de sedução.
Sobretudo não há paixão, romance ou sexo.
Falta algo quando não se tem em quem pensar, nem que seja com raiva.
Mas o presente é algo entre a resolução do último gostar, a ferida que já se curou (ou nã0) e ninguém de novo pra ocupar o espaço.
É a apatia de não ter emoção pra comentar os amores alheios e responder como quem não fuma, quando lhe oferecem um cigarro: "Não, obrigada, eu não fumo!"
- Não, obrigada, eu não amo!
Eu amo sim! Mas no momento não há quem amar. E é bem mais divertido ter o coração na mão como o refrão de um bolero.


Goiânia do tédio da cura, 28.09.09 - 01:25

2 de out de 2009

A carta mais linda que eu já escrevi

Goiânia das causas perdidas, Brasil...

Esta é a última carta que te escrevo. Ou pelo menos conscientemente, a última que desejo escrever. E nem sei por onde começar. Mas começarei pelo adeus. Porque dizer adeus na verdadeira hora da despedida é estranho, dolorido. Então façamos antes nossa despedida. A nossa. Adeus. Até mais. Boa sorte. Qualquer coisa vejo você por aí. Pronto. Ufa! Passou! Agora que já nos despedimos, vou explicar a você porque eu estou indo. Na verdade ainda nos veremos mais muitas outras vezes e ainda nos abraçaremos naquele abraço longo onde cabem histórias de eternidade. Ainda teremos noites de aconchego e de simplicidade quando, cúmplices de nossas idéias, nos daremos as mãos e nos faremos compreensíveis a nós mesmos. Portanto não é de fato um adeus. Mas é o dia em que decidi deixar de te amar.
E se eu fosse fazer um filme deste dia, eu contaria de forma poética e iluminada de vermelho como eu desenho com minha melhor letra essas palavras. E como eu olho pra cadeira do lado e nela está escrito em tinta branca “meu bem querer”. Mas eu não faço isso, eu te escrevo uma carta. E essa eu vou te mandar. De uma forma ou de outra, ela chegará até você. Quem sabe se acompanhada das outras que guardo pra te dar, mas que eu não mando. Hoje eu vou dizer mais. Eu vou ocupar mais espaço. Talvez porque a simples idéia de preencher seja reconfortante. Ou porque não haja mais espaço em outro lugar. Não há espaço nos seus versos nem nos seus cabelos (Ah! Os seus cabelos...). Não há espaço na sua noite ou nos seus travesseiros. A sua roupa já está ocupada. Seu sorriso cheio de dentes já tem direção. Não me cabe nos seus cadernos ou nos seus filmes. Seus ouvidos já têm som. Os seus olhos dormem tranqüilos e sua pele macia está resguardada. O seu cheiro de roupa limpa paira sobre os meus dedos e o seu pescoço descansa em algum lugar.
Na minha última carta eu te confesso tudo. Te entrego meus segredos e o que desejo, porque é assim, aberta, que eu vou embora. Eu tenho vontade de acender um cigarro toda vez que te vejo. Dessa forma ele acompanharia escandaloso os meus dedos que também já não cabem nas minhas mãos e que não acham lugar quando você está por perto. Eu queria te ligar sempre que olho pra lua, sempre que vejo um filme bom, que saio pra respirar ou que como chocolate derretido. Gostaria de poder amarrar os seus olhos aos pés da mesa (ou aos meus pés, que seja) sempre que eles percorrem a multidão enquanto conversamos. E queria poder entender como eles, ainda assim, vêem tanto em mim. Eu desejo saber, ainda que só por um instante, se você pensa em mim e como me tem em pensamento. Eu queria te perguntar se é assim com todo mundo, com todas as garotas que você tem por perto, se existe um afago especial, só meu, ou se não passa de cordialidade e calor humano usual. Seria bom se me dissesse e esclarecesse se todo esse sentimento que pensei poder estar nascendo de lá pra cá realmente existiu ou se era fruto da minha mente carente e imaginativa. Já que eu falei nas garotas, eu também vou lhe dizer que eu queria que elas não existissem, ou sumissem, ou que apenas não nos vissem. Cegas e desviadas para sempre. Cabe também na minha lista de vontades te trazer para o meu mundo. Te guiar pelo meu azul, te apresentar os meus monstros e as sardinhas que tenho na pele. Concretizar com você os nossos planos listados e elaborar planos novos. E comer coisas gostosas e beber vinho a cada aniversário. Eu queria poder me casar com quem eu adoro conversar e deitar na rede pra sentir o silêncio nos ouvidos. Mas no fundo, no fundo, eu até poderia querer outras coisas, se você me quisesse. E eu desejaria que você já tivesse me beijado de novo há muito tempo atrás.
Eu queria ter tido a coragem de te dizer tudo isso de perto, te convencer. Mas é que ninguém convence o outro de coisa alguma, então eu simplesmente te conto que você adentrou espaços impossíveis, cercados, resguardados, há muito inabitados e abandonados. E não foi por falta de guardas, cercas e sentinelas. Eu bem que tentei te impedir de entrar. Mas você tem essa mania irritante de não pedir permissão e de adivinhar quando estou me armando contra você. Enfim... o que importa agora, nessa última carta, é que você está lá, acampado. E pode ir ficando, desde que não se movimente muito. Movimentos bruscos causam borboletas no estômago e o doutor disse que isso faz mal.
No fim das contas, eu vou continuar não sabendo como agir com você, pra onde dirigir meu olhar quando você chega, onde colocar as mãos quando te tenho ao lado ou como frear as batidas desse coração estúpido quando você me abraça. Na verdade, eu penso que vou continuar agindo do mesmo jeito de sempre. Fingindo que nada disso é comigo e que essas coisas não me afetam. Ah, sinceramente, nada vai mudar e já que você está acampado no meu peito eu só quero mesmo que nada mude. E que venham nossos próximos papos, encontros e abraços e a janelinha piscando no computador e o caderninho de coisas a serem feitas nunca feitas e tudo mais que cabe no cotidiano de nós dois.
É que hoje eu só queria te dizer que estou indo embora, amordaçando minhas falsas esperanças e esquecendo os meus desejos. E é só porque você não é pra mim, ou eu não sou pra você. É só por uma questão de falta de espaço, de acomodação, é só por desespero e medo. Mas se o fato de um dia eu ter me apaixonado por você não te incomodar, também a mim não incomoda. Eu te perdôo por isso e nem te odeio. Fique aí acampado o quanto quiser. E traga na memória o meu cheiro. Adeus.